Debates na internet e ceticismo

Debates na internet e ceticismo – os entraves do mundo virtual para o desenvolvimento de um espaço honesto de difusão de ideias

Sou extremamente cético acerca da utilidade da internet como meio para debate de ideias. Quando essa formidável invenção surgiu e começou a se difundir, principalmente com o advento das redes sociais, um argumento sustentado pelos seus entusiastas era o de que o mundo virtual democratizaria o acesso à informação e aos debates, servindo para a construção de um espaço de deliberação legítimo.

Não se pode generalizar e, simplesmente, pregar a proscrição das redes sociais com um todo, mas o fato é que essa visão otimista já foi diversas vezes contestada pela realidade factual. Manifestações de ódio e racismo (até mesmo contra nordestinos como eu, como ocorreu após a vitória da Presidenta Dilma, em 2009), sensacionalismo, falta de interesse na busca por uma verdade possível e apreço à tragédia humana são apensas algumas das chagas dos “debates” virtuais, constantemente viciados pelo covarde anonimato.

Trata-se da falência da liberdade de expressão num auditório formado por falantes anônimos. O anonimato não é a única justificativa para todas as mazelas antes apontadas, mas contribui sobremaneira para o desenvolvimento delas. Sem a possibilidade de responsabilização em face da ausência de identificação, os anônimos atacam a honra alheia, difamando, caluniando e injuriando, num “discurso” onde as falácias ad hominem imperam.

Se for para ver o lado bom de tudo, a única serventia do anonimato é desnudar aqueles que se beneficiam de tal prática, mostrando a verdadeira e desprezível natureza deles. No entanto, tal argumento não justifica a mencionada falta de identificação, tendo a Constituição de 1988 feito essa ponderação entre a total liberdade de difusão de ideias (a qual albergaria o anonimato) e a proteção da honra dos interlocutores (os quais poderiam promover a responsabilização daqueles que se excederam, algo somente possível mediante a identificação deles). Ao vedar o anonimato, a Constituição não admitiu qualquer tipo de transigência no que tange ao debate público.[1]

Mencionei anteriormente que o anonimato não é a única explicação para a falência dos debates virtuais. O motivo essencial para meu pessimismo, assim, é outro: o desapreço de certas pessoas pelos valores democráticos, principalmente os afetos à tolerância. Para pessoas que não incorporam no seu cotidiano tais virtudes, o anonimato serve como instrumento para a difusão de sua mesquinharia. Não fosse ele, talvez não houvesse a publicação de um pensamento preconceituoso, mas o indivíduo continuaria com esse grave desvio de personalidade.

O tema é polêmico e complexo, pois diz respeito às teorias éticas e às doutrinas morais. A moral, a partir do momento em que aponta a conduta do ser humano diante de certo dilema e a ética, que vem justificar tal tomada de postura, são instrumentos para o aprimoramento de cada um. Sendo assim, também não acredito que o Direito possa desempenhar tal papel, pelo menos não exclusivamente: o desenvolvimento da personalidade humana também é tarefa da religião, da família, dos amigos e de todos aqueles que habitam o espaço não institucionalizado da sociedade civil.

Há espaço para otimismo, no entanto.

Um debate entre pessoas honestas, as quais, mesmo criticando veementemente as ideias opostas, estão preocupadas com o desenvolvimento argumentativo, pode ocorrer na internet, principalmente com a identificação de cada interlocutor. Nos blogs isso é mais difícil, já que, mesmo em se colocando o nome nas postagens, nada impede a ocorrência de falsidades.

Se os debates virtuais ainda precisam se instrumentalizar adequadamente em prol de uma livre discussão de ideias, é forçoso reconhecer que a internet, não como meio de debate, mas como meio de simples divulgação de ideias, não encontra paralelo em qualquer outra mídia.

Essa foi a razão preponderante para eu aderir ao mundo dos blogs. Em outras palavras: se o debate de ideias ainda é capenga, a divulgação das mesmas não é. Através da internet, para citar um exemplo quase simplório, é possível o rápido acesso a um artigo publicado em determinado periódico, abrindo as portas do conhecimento (para o elogio ou para a crítica, frise-se) de maneira formidável. Nenhum meio impresso tem o mesmo poder de divulgação de ideias, que o diga a biblioteca Kindle da Amazon.


[1] Mesmo as denúncias anônimas de eventuais crimes, como se sabe, não justificam o ajuizamento de ação penal, ante a manifesta ausência de justa causa, admitindo, quando muito, o início de investigações. Como a autoridade policial pode até mesmo agir de ofício, justifica-se essa admissão limitada do anonimato, o qual, nesses casos, pode servir como proteção do denunciante.

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